O céu chora desconsolado em seu velório, querida sanidade. Eu velei-te por três dias e três noites. O véu de luto faz as honras da máscara. Desculpe-me pelas algemas, eu ando cortando em navalha fina asas de borboletas. Lembras-te do nosso quarto de composições ao piano? Construí um cenário de suicídio em cada província. Estou alvejando hoje a virgem de preto com o circundar das câmaras do revólver do papai, que descansava em sete chaves no cofre. Nele mora uma bala que não é de açúcar. Mas é doce, tão que eu anseio prová-la brincando de roleta russa no auge da madrugada. Há muito não vejo a mamãe, mas ela tatuou em mim suas mãos na última vez. Não foi porque experimentei o gosto de seus batons, mas sim por marcá-los em cada um de seus amantes que forneceram dinheiro ao passear em seu corpo. Dessa vez ela me fez sentir o mármore do chão. Desmontei em cacos de porcelana fria. Mamãe chorou baixinho, e tentou remendá-los e perpetuar-me dentro de uma caixa de sapato. Mas minha morada agora é a prisão. Aqui eu me visto com as vestes frias que o papai já folgou. Estou cursando sua profissão e me revelando um prodígio. Nessas grades o tempo conspira para que eu possa me expressar em poemas melancólicos plagiados. Rasurei muitos. Não sei o que sucede-se por detrás do aço e concreto ultimamente, embora tenha consciência de que ainda sou – e serei – a insônia de muitos. Oh, sanidade, está em minha hora de despedir-me de ti para sempre! O caixão está descendo e as rosas sangrentas cobrem sua áurea... Espero que vagueie pelo mundo dos mortos de olhos costurados. Não te permitas me ver. Eu sou o corvo conformado em uma gaiola construída por desespero. Observando os pássaros – sem dom – se debaterem pelas brechas de esperança forjada. Eu asfixio minha abstinência e adormeço (pereço) em meu apropriado travesseiro – as margens do vaso sanitário – em minhas condicionais. Vômito-te; O banheiro é a igreja de todos os drogados e bêbados.
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