“Ah, lê quantos desastres há em minha mão? ”
Vai passar, meu grande amor. O trigo logo, logo, será massinha de pãezinhos no vão de seus dedos de andorinha, que como bem sei, não suportarão até que fiquem prontos no forno para queimar a língua, e assim saboreá-los tanto quanto trigo cru ao céu da boca o clamaria de realeza. Vai passar, meu grande amor. Logo, logo, os canários migraram para o sul, os agasalhos para seu corpo, seu corpo para os armários, os armários para além da realidade, e então eu para junto de ti. Vai passar, meu grande amor. Logo, logo, o inverno será primavera, a esperança acordará bocejante para re-pendurar os terços nas cabeceiras, e suas jubilosas placas receptivas nas portas dos fundos. Vai passar, meu grande amor. O sofá descansará as noites, e os relógios de pulso não completarão seus 360º. Anúncios serão apenas procura-se por mãos-de-obra, e você vai me encontrar. Vai passar, meu grande amor. Não mais precisarás pintar minhas unhas para conter ao que arranha-me no avesso, quando espelhos não temerão refletir; graças as nossas pálpebras (tirai os prendedores do nariz!) leiloadas aos santos, por caridade da esperança que esgota nossos bolsos. E já devemos tanto para aquele olhar de divindade, que uma cruz ao nosso nome é o que nos resta deixar nas gavetas de paletó; da caixinha em sempre dificuldades melhores que as nossas muitas. Seremos então humildes, mas justos não. Justiça é pecado! Na guerra, quem enche as taças de vinho até a margem, são os ternos. E ainda não sabemos se temos pais, apenas país. Vai passar, meu grande amor. O sino da igreja não mais será o hino da nação, gravatas apenas serão o luto, – o nosso Mein Kampf –, e o açougue não mais distribuirá nós em fatias aos porcos. (HUMANO ADULTO: 35 litros de água, 20kg de carboidratos, 4 litros de amônia, 7,5kg de cálcio... 800gr de adenosina, 250gr de sal, 100gr de nitrogênio. Verifique a validade. Por favor, guardar o recibo da garantia. Ao consumir o produto, não aceitamos devoluções, tampouco por favor, por favor.) Vai passar, meu grande amor. Crianças não precisarão andar de mãos dadas com a mamãe para recordarem-se de suas varandas, e nós poderemos andar de mãos dadas. O ronco de aviões serão vozes de garotinhos emprestadas às suas pipas. Os cupins finalmente deixarão nossa árvore familiar. Fogos serão por comemorações. As pontas de nossos dedos voltaram, e a ser vermelhas, e céu ao seu azul. O seu azul. De água doce. De oxigenação do seu; de todo céu que é céu seu. Palavras difíceis de notícias pesarosamente difíceis serão banidas, e logo, será fácil rememorar as letras de nossas músicas prediletas, também de quase acreditar em mim. Lembre-se de me convencer, assim que conseguir.
Passará, meu grande amor. Como o nosso verbo no futuro. Como o nosso passará, passou. Passou, como o vagão do trem. A luz no fim do túnel, do trilho, que imploramos que passasse: que passasse por cima de nós.
Passou.