domingo, 16 de outubro de 2011

Os anjos são os primeiros a falhar.



Ah, lê quantos desastres há em minha mão?
 Vai passar, meu grande amor. O trigo logo, logo, será massinha de pãezinhos no vão de seus dedos de andorinha, que como bem sei, não suportarão até que fiquem prontos no forno para queimar a língua, e assim saboreá-los tanto quanto trigo cru ao céu da boca o clamaria de realeza. Vai passar, meu grande amor. Logo, logo, os canários migraram para o sul, os agasalhos para seu corpo, seu corpo para os armários, os armários para além da realidade, e então eu para junto de ti. Vai passar, meu grande amor. Logo, logo, o inverno será primavera, a esperança acordará bocejante para re-pendurar os terços nas cabeceiras, e suas jubilosas placas receptivas nas portas dos fundos. Vai passar, meu grande amor. O sofá descansará as noites, e os relógios de pulso não completarão seus 360º.  Anúncios serão apenas procura-se por mãos-de-obra, e você vai me encontrar. Vai passar, meu grande amor. Não mais precisarás pintar minhas unhas para conter ao que arranha-me no avesso, quando espelhos não temerão refletir; graças as nossas pálpebras (tirai os prendedores do nariz!) leiloadas aos santos, por caridade da esperança que esgota nossos bolsos. E já devemos tanto para aquele olhar de divindade, que uma cruz ao nosso nome é o que nos resta deixar nas gavetas de paletó; da caixinha em sempre dificuldades melhores que as nossas muitas. Seremos então humildes, mas justos não. Justiça é pecado! Na guerra, quem enche as taças de vinho até a margem, são os ternos. E ainda não sabemos se temos pais, apenas país. Vai passar, meu grande amor. O sino da igreja não mais será o hino da nação, gravatas apenas serão o luto, o nosso Mein Kampf , e o açougue não mais distribuirá nós em fatias aos porcos. (HUMANO ADULTO: 35 litros de água, 20kg de carboidratos, 4 litros de amônia, 7,5kg de cálcio... 800gr de adenosina, 250gr de sal, 100gr de nitrogênio. Verifique a validade. Por favor, guardar o recibo da garantia. Ao consumir o produto, não aceitamos devoluções, tampouco por favor, por favor.) Vai passar, meu grande amor. Crianças não precisarão andar de mãos dadas com a mamãe para recordarem-se de suas varandas, e nós poderemos andar de mãos dadas. O ronco de aviões serão vozes de garotinhos emprestadas às suas pipas. Os cupins finalmente deixarão nossa árvore familiar. Fogos serão por comemorações. As pontas de nossos dedos voltaram, e a ser vermelhas, e céu ao seu azul. O seu azul. De água doce. De oxigenação do seu; de todo céu que é céu seu. Palavras difíceis de notícias pesarosamente difíceis serão banidas, e logo, será fácil rememorar as letras de nossas músicas prediletas, também de quase acreditar em mim. Lembre-se de me convencer, assim que conseguir.

 Passará, meu grande amor. Como o nosso verbo no futuro. Como o nosso passará, passou. Passou, como o vagão do trem. A luz no fim do túnel, do trilho, que imploramos que passasse: que passasse por cima de nós.
 Passou. 

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

A Psicografia & O Psicógrafo.



Meu querido,

 Eu venho tendo posse da nossa eternidade prometida, e logo digo que sou menos imortal por isso. Por onde andas, meu amado? O meu Sol nascerá no Oeste? ‘Tão boas notícias suas são, já que minhas nunca chegam? Até mesmo quando dúvidas parecem não ter fim, se terminam em pontos tortos. Ou seriam barrigudos? Ou lamparinas de idéias? Veja só, e o quanto não vejo! Tenho tempo de sobra para imaginar como bem prefiro minha dor! Embora isto nunca a faça faltar... Caracterizei-me de ocasião especial, até que os horizontes batam enfim, a porta amanhecida aberta. (A campainha de modo algum traz companhia, mas as levam.) À espera de ti, enfeito-me dentro de estréias do meu eu seu predileto. Do meu melhor nos armários, que começaram a se tornar sufocantes. E você acreditaria se eu lhe cochichasse que, da janela, o nosso abençoado carteiro me confunde com quadros de outros séculos, enquanto eu descubro das cortinas que um mês a cada dois, ele enseba os cabelos de gel para ser fotografia? Ele possui um nome, e não sai de cena como que achávamos após descer nossa estradinha de terra e deixar-lhe salvo em varanda, carimbado de cera, selos e envelopes-creme, para ouvir-se em meu tom e inovar-me de velhas preces. O carteiro faz bico em cada história, mas a sua é tão “de: eles” “para: outros”...
 É que tive a indiferença dos ponteiros para apontar-me que quando você é um entregador de cartas, nenhuma se pode abrir. E que, quando você tem muito tempo para viver, meu bem, acaba sendo um fantasma a assombrar a graça do pouco de alguém. Tu me prometeras o Sol praiano, o sal dos sete oceanos; mas em nosso mundo seguro das guerras, protegida nele por sete chaves e de ti, vislumbro-me em uma gaveta a sete palmos de carta alguma alcançar, sem que desmanche-se nas lágrimas do mar. Sua pequenina pérola, tu protegeste da proteção. E o espaço que ficaste entre estratégias e planos, o vazio dela pontuou, corrigiu. E mesmo em nossa sobrevivente linha pontilhada, feita a giz, “Sim, Senhor!” ainda quer dizer para nós, que o ímpar “sobreviver” não diz “sobre viver”.

De sua amada, para o todo pouco do sempre.

“Estranho, prazer em conhecê-lo.” “O prazer é todo meu.”

Quanto mais o sótão de você conhece, mais de estranho se parece.
Eu deveria ter levado a porra d’uma lanterna.
Eu não deveria ter levado uma lanterna.

Sanatório St. Andrews. Palavra legal, não? Sanatório. Nada parecido com a realidade daquela pocilga. Fui vê-lo antes que o demolissem no fim dos anos 70. Ainda fedia a mijo e desinfetante de pinho. Corredores compridos e mal iluminados com quartos pequenos, parecidos com celas, nas laterais. Se você estivesse procurando o inferno e encontrasse St. Andrews, não ficaria decepcionado.”

 O estranho observa ao longe as boas meninas pularem corda, – lambuzadas de batom barato da mamãe –, “doze, treze, quatorze... Três, dois, um... Sua vez”, quiçá por descoberta da cor de suas calcinhas... Sabe-se lá que como jornal e suas notícias ruins, ele inspirava-se de “ABC”. Ele está lá no desvio cinzento, com seus olhos tirados, sapatos engraxados e sua barbicha falha, de rapaz que pede a garçonete de aperitivo, por bel-prazer d’um dito filho da puta, ser. O estranho não tem pressa: em sirenes ou faróis vermelhos, ele abre o zíper da calça para pagar as dívidas da mamãe. Para-amamentar-a-mamãe. Mas não, não, o estranho não é de fato, estranho. De modo algum tenho pressa por fechar feridas em apenas lâminas do narrativo; como você e vós, não “tendes” morrer. Tendes. (Essa é boa.) “Tem-de” aquelas risadinhas num emaranhado virginal, Pisca-Pisca e seus fantasmas vários, – de já muitos dezembros partidos –, voltarem enfim, a mim. E ninguém os disse para onde vão dar. Mamãe preservou-os dos papéis de parede que descascam, já que o preço das gozadas do papai na puta que pariu interfere no tamanho de seus presentes. Mas a mamãe é uma boa mulher; o Bicho Papão não tem do que reclamar, – é só a merda do chá que é deixado esfriar. Mamãe cruza as pernas e engole suas palavras, como se engolisse a porra dos gostos mais refinados, – ao qual o papai só lambe os dedos quando ternos ocupando as cadeiras estão, mas não olhando. Mamãe se convence de tudo, até mesmo de que o Papai Noel passa pela chaminé, mas que o papai não passou pela porta dos fundos. Mamães fodem como menininhas, quietinhas e assustadas. Mas os grunhidos não são delas não, que tamanha calúnia! É o sótão. É o rato! O rato malvado, que rói os cordões pela sua – e minha – infância romper: mas não interrompe as muitas cordas a vir de todos, saltarem.

“Eu o estrangulei com sua gravata. Saiu espuma de sua boca, e ele ficou azul feito lagosta crua.”

“O legista disse que fora suicídio, e 75 meninos respiraram aliviados.”

O estranho observa ao longe as boas meninas pularem corda, “doze, treze, quatorze... Três, dois, um... Sua vez”, quiçá à descoberta da cor de suas calcinhas... O estranho que hora ou outra, abre o zíper da calça.
Tudo, tudo, minha cara, acaba empacotando nos sótãos.