quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Induzida ao Coma

(2010) Janeiro, Fevereiro, Março, Abril, Maio, Junho, Julho, Agosto, Setembro, Outubro, Novembro, Dezembro. Primavera, Verão, Outono, Inverno, Inverno, Inverno... Inverno... Calor, frio, frio... Chá frio. Sol, Lua, Lua... Chuva... Chuva... Diários vazios. Vazio, vazio, vazio, vazio... Vazio. (00:00)

Eu sobrevivi (suportei) mais um ano? 

A Visita Inesperada


Sino dos ventos feito de retratos amarelados,
Armadilhas d’O caçador pegaram sua lebre.
Alfinetes no meu crânio.
A Noiva e A Viúva nunca me disseram...
Há moscas mortas na minha banheira,
Há manchas de café nos meus lençóis e abaixo dos meus olhos.
Teço com pressa minha mortalha,
Enquanto observo pela janela o coveiro preparar a minha cama eterna.
A Noiva e A Viúva nunca me disseram...
Articulações enferrujadas,
Um buraco no peito e dois na cabeça.
A Noiva e A Viúva nunca me disseram...
Nunca me disseram...
Nunca disse...
Que A Dona Morte não batia na porta antes de entrar,
Eu não preparei café na sala de estar.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Visão Acromática

“Filho, fique quietinho agora, não chore...
Mamãe irá fazer todos os seus pesadelos virarem verdade.
Mamãe irá colocar todos os medos dela em você.
Mamãe vai manter você bem debaixo da asa dela.”
(Pink Floyd – Mother)


Mamãe cantarolava. Mas eu tapei meus ouvidos e fugi. Pois a sua canção de ninar era a ceia de refeição dos meus monstros no armário.

Oh! Darling, seus sapatos estão desamarrados, embora as cordas do seu violoncelo estejam cheias de nós. Você aqueceu corações com composições frias. Já está vazio o teatro. Não há mais maxilar para deslocar. Mais uma vez você tentou colorir-se através de pincéis, telas e tintas. Mas em seu estojo de aquarela só existe tonalidades de cinza. Você já tentou apalpar seus bolsos? Outra vez flagrei-lhe tentando surrupiar o Sol. Ele caiu de bunda no chão! Talvez o seu arco-íris também tenha escorregado de um dos seus muitos cofres sem fundo. Desculpe-me pela indelicadeza, darling. Eu sei que está de mãos atadas devido as encruzilhadas e estradas que percorreu. (Não compreendo. Mamãe não lhe alertou de que se desejasse envelhecer, não era para arrumar as malas?) Mas aqui lhe ofereço de bom grado meu pão amanhecido. Eu sei, eu sei... Ele está seco como nossas esperanças. Mas, caso engasgue com as migalhas e farelos, beba da goteira. Se suas mentiras não lhe asfixiam, você engana assim como nossa platéia; A tosse; A febre; As dores; O Bicho-Papão; As mães; Os crochês; As agulhas; As guerras; As armas; Os heróis; A urgência; Os garçons; Os rins; Os estômagos; Os cérebros; As memórias; As rugas; O tempo; Tudo.

Cálculo d’O Tudo: Armas Brancas + Rosas Negras = Bruma cinza; Você. (Eu-lírico. Datilografia)

sábado, 11 de dezembro de 2010

Charada Mortal

(Situado em Pigalle no Boulevard de Clichy, à margem de Montmartre.) Havia uma menina. Uma estranha menina que observava o moinho vermelho toda madrugada. Pendia nos lábios sempre um cigarro Marlboro ao invés de algodão doce. Ela estava nos diálogos curtos e longos da França. Os tolos e reis driblavam o nariz pontudo para desejá-la. Era bonita demais, mas nova e ausente o suficiente para não acolhê-la no pecado dos homens. Ela impressionava a sociedade com seu silêncio sábio. Seus olhos desprezavam tudo que alcançavam, mas seu sorriso não alcançava os próprios. Forjado. Ela inspirava composições. Diziam que era filha das províncias interditadas e sonhos esquecidos. Outros garantiam que viera de muito longe, além da terra e oceano. Caia moedas em seu chão, mas ela nunca se humilhava para apanhá-las na sarjeta. “Já estou enjaulada em nicotina e nos olhares curiosos. Não decore meu travesseiro com prata e ouro, e não ultrapassem minha cortina de fumaça fétida.” Evitava com seu sotaque suburbano macio como seda, vestido em um tom áspero enrouquecido. Eu era mais um de seus admiradores anônimos. Eu a desenhava na penumbra, mesmo sem o auxílio do luar prateado. Insistia em ter sua assinatura, e ela sempre recusava dizendo que tinha muitos nomes e rostos. Ela era uma atração turística. Uma interrogação sem trégua. Ela ofuscava o Moulin Rouge. Infelizmente seu aroma de canela não podia ser impresso em meu papel. Era uma pena que em fotografias seu retrato não era revelado. Era uma pena que em espelhos seu reflexo se escondia. Até que em uma noite comum, um fato histórico aconteceu. Eu fui ao seu encontro como costumava, mas só avistei um Moulin Rouge que tonteava com seu brilho retomado. Ela tinha ido embora. Parecia ter autonomia da liberdade e do tempo, embora fosse uma criança com o vôo interrompido. (Paris, França - 1988.)

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Açougue de corações

HÁ GRITOS ABAFADOS POR APLAUSOS
HÁ SANGUE POR DETRÁS DE UM BELO TRUQUE

Ampulheta concluída. O tempo acabou. Há um mar em ressaca de sangue esperando-nos por detrás dessa catedral adormecida. Trouxe comigo uma amostra de sua fúria em minhas mãos; um revólver experiente, envenenado por minhas preces possessas. Caminho por um manto de breu que encobre minha sombra. Não há pulso em mim. Labaredas de velas tremulam como meus joelhos medrosos. Eu vou soprando-as conforme marcho, perpetuando a escuridão. Não suporto os orbes de condeno da atmosfera. (Água purificada não lavará os meus pecados.) Vejo-te ao longe em uma embalagem de vidro adornada por flores murchas. Que sono fiel este teu, vendeu seu calor sem minha assinatura, querida Julieta? Questiono-te incessantemente, as doze badaladas então me interrompem e apontam-me evidências. Sem mais. O silêncio prevalece. Um fôlego insaciado de urgência sana minhas dúvidas. Olhos despertam aliviados. Mas amada, não deveras contemplar minha presença. Se o veneno que tomou só proporcionou-lhe batidas na porta do céu, eu coleciono um arsenal apropriado para forjar chaves que destrancarão as fechaduras do paraíso e te auxiliarão em uma invasão sem probabilidade de fuga. Meu sangue está quente. Seu oxigênio está restrito. Serei seu doce assassino. Você está sendo sepultada viva, esse é o seu auto-julgamento. Estamos separados por muito mais do que uma vidraça de um caixão refinado, mas a Lua sangrenta dessa noite testemunhará uma nova versão de uma velha história. Pois eu sou egoísta demais para permitir que você roube-se de mim. Eu vou pôr-lhe um fim que trespassa o seu alternativo, porque tu és minha única propriedade. O intermédio do meu prazer doentio. Estou afogado em uma mescla de ódio, insanidade e frustração. Como podes dormir pacificamente, quando estou respirando esse pesadelo? Seu teatro naufragou minha compreensão. Atenderei seu roteiro, porque o seu desejo é uma ordem. Só seu sangue me fará voltar à superfície. Agora será a minha vez de brindar com seus fantasmas atrás das cortinas, enquanto você engasga em seu próprio veneno. (Não poderei contemplar os aplausos de minha Julieta, mas eu me contento com a sentença de assistir sua silueta em queda.) Nada em minha peça será artificial. O roteiro é desconhecido. Atente-se, pois eu não farei lebres retornarem da cartola. Não existirão promessas, tampouco ilusões de ótica. A minha satisfação é o suficiente para o show continuar. Você será a protagonista, mas não terás o seu final feliz. Morrerás devagar, eu quero apreciar sua carne empalidecer, a respiração oscilar e o coração desacelerar. Pois o amor é renuncias, não é mesmo? O peão inesperado dará o xeque-mate. Não terei piedade de uma bala, vou desfigurá-la! Pois eu sou ciumento demais para permitir que os vermes levem de mim sua beleza. E mesmo quando em uma noite sem alma, o gatilho reservar-me uma bala e esta sussurrar convidativamente o endereço do suicídio ao meu ouvido, eu não o procurarei. Pois eu sou pobre demais para comprar o céu e morar contigo nele.


“Show de marionetes feitas de carne e osso.
O amor é as linhas que manipulam-nas.
Corte-as, bonecos humanos desgraçados!”
O rascunho de um clássico romance.
(II. Obras avulsas em gaiolas humanas.)
Escape the Fate - Not Good Enough For Truth Or Cliche. 

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

SANGUE&ÁGUA

[MINHA PROSTITUTA TRAJA MORTALHA]
A LITTLE PIECE OF HEAVEN 

Before the story begins, is it such a sin, for me to take what's mine, until the end of time. We were more than friends, before the story ends. And I will take what's mine, create what God would never design. Mantive-te tão perto, alimentei uma obsessão. Mas você sempre postou-se ao lado inverso no meu tabuleiro de Xadrez. Eu estava obcecado, disponível a ser o agente da sua discórdia. Nunca me importei com seus sentimentos, eu só almejava depositar-lhe em minha vidraça de conquistas. Algemei-a em uma aliança oportunista, mas demônios jamais casam com a paz, não é mesmo? Pensei que estivesse lhe embriagado o suficiente quando lhe propus o meu amor congelado. Você ainda assim foi capaz de recusar? Our love had been so strong for far too long, I was weak with fear that something would go wrong. Before the possibilities came true, I took all possibility from you. Arranquei-lhe as opções, eu a teria nem que fosse para empalhá-la no necrotério. Almost laughed myself to tears! (HA-HA-HA-HÁ!) Conjuring her deepest fears. (Come here you fucking bitch!) Assim o fiz. Seu sangue era tão puro que excitou minha lâmina. Seus gritos eram a melodia para a composição da sua sentença! Must have stabbed her fifty fucking times. I can't believe it, ripped her heart out right before her eyes. Eyes over easy. Eat it, eat it, eat it! Porque deixou de me contrariar, querida? Reconheceu só depois que definhei sua carne que renunciar sempre lhe foi conveniente? Fiz-te o intermédio de meus desejos mais insanos! Devorei seu coração para que ele só pulsasse se comigo. Uma boneca sublime fora da estante, perpetuada nas mãos de uma criança insaciada por diversão! She was never this good in bed, even when she was sleeping. Now she's just so perfect, I've never been quite so fucking deep in! It goes on and on and on... I can keep you looking young and preserved forever, with a fountain to spray on your youth whenever. Estava sempre tão entusiasmada, eu não me importava com aquele olhar opaco quando tinha seu sorriso disponível sempre que eu exigisse. ‘Cause I really always knew that my little crime would be cold, that's why I got a heater for your thighs. And I know, I know it's not your time. But bye, bye! And a word to the wise when the fire dies. You think it's over, but it's just begun! But baby, don't cry... You had my heart, at least for the most part. ‘Cause everybody's gotta die sometime. Dançamos coreografias que você nunca se prontificou a aprender. Deleitei contigo sem sua permissão, a temperatura desproporcional do seu corpo em decomposição livrava-me das chamas do inferno. We fell apart, let's make a new start! ‘Cause everybody's gotta die sometime, yeah! But baby, don't cry... Conservei-te com Formol e restaurei sua ingenuidade. Admirei minha obra durante o badalar dos sinos da catedral todo pôr-do-sol. Eu constitui com sua desgraça a minha paz egoísta. As drogas não eram mais prioridade, quando lúcido eu era o imperador de um mundo surreal, só meu. Mas eu não sabia que ele estava sustentado por um fio tão tênue. Now possibilities I'd never considered, are occurring the likes of which I'd never heard. Now an angry soul comes back from beyond the grave, to repossess a body with which I'd misbehaved. Vadia, destruiu minha utopia! Sua maldita alma veio re-possuir o meu tesouro para fazer justiça com as próprias mãos? Isso nos faz tão iguais. Smiling right from ear to ear. Almost laughed herself to tears! A justiça pessoal é vingança, o que não é uma dádiva dos céus, não é mesmo? Acho que isso não se restringiu a minha percepção, sua áurea e asas de repente esvaneceram enquanto cravavas suas mãos em meu coração putrefato para recompensar minhas atrocidades. Pareces até mesmo os ceifeiros do demônio cronometrando minha sobrevida, acho que conviveras com muitos enquanto estive em êxtase. Entrego-me sem resistir a ti, minha amada. Deixo-te mostrar-me o covil em chamas que eu lhe empurrei sem compaixão. Now that it's done, I realize the error of my ways. I must venture back to apologize from somewhere far beyond the grave. I gotta make up for what I've done. ‘Cause I was all up in a piece of heaven, while you burned in hell, no peace forever. You had my heart, at least for the most part. I will suffer for so long. (What will you do, not long enough.) To make it up to you... (I pray to God that you do.) I'll do whatever you want me to do... (Well then I'll grant you one chance.) And if it's not enough... (If it's not enough, If it's not enough...) If it's not enough... (Not enough.) Try again... (Try again...) And again... (And again.) Over and over again. Provei do meu veneno e agonizei. Você ainda estendeu as mãos, mesmo depois de tudo que fiz, querida? We're coming back, coming back! Trouxemos companhia do mundo dos mortos! We'll live forever, live forever! Let's have wedding, have a wedding! A catedral é o nosso paradeiro! Let's start the killing, start the killing!

“Do you take this man in death for the rest of your unnatural life?”
“Yes, I do.”
“Do you take this woman in death for the rest of your unnatural life?”
“I do.”
“I now pronounce you...”

Cause I really always knew that my little crime, would be cold that's why I got a heater for your thighs. And I know, I know it's not your time. But bye, bye! And a word to the wise when the fire dies, you think it's over but it's just begun! But baby don't cry... 
(Obras avulsas em gaiolas humanas.)
Homenagem à “The Reverend” - 28.12.09