quinta-feira, 17 de março de 2011

"Não percebi que era uma ocasião triste."

“Invente-me.” Íris-lunar, cênica, atuou para além de suas fases. Exigindo o artista sem que lhe faltasse. Os ombros nus. O corpo nu, perecendo em febre. “Lembras-te que eu somente era tela vazia sem ti?” Ele não levantou os olhos do mármore. Ela estava distante. “Restaure-me. Perdi o seu eu de mim.” Ele estremeceu, mas não levantou os olhos do mármore. O pincel gotejou. Ela continuava distante, muito distante. “Dê-me cores. Dê-me vida, por favor. Faça-me mapa, sejas-te o meu explorador. Ou faça-me estrela, sejas-te o meu louco observador. Mas faça-me, e então sejas-te.” Lamento, mas ele não ergueu os olhos. Não empresou suas mãos de tinta em sua face. Não a inventou, e, como tudo o que não foi descoberto, ela foi riscada do existir. E logo o vento, amante dos fins, sua parte fez. Confundiu-se em ondulações prateadas, e como maré e brisa, as mãos de tempo acariciaram-na por ele – manchando-a de adeus –, levando a sua amada eternizada, assim como feito aos contos inacabados, para que assim o artista não mais pudesse voltar para eles reeditando-os. Levou-a, mais uma e última vez. E aqueles olhos de artista – já fatigados de perscrutar os pores-do-sol e os horizontes –, perderam os de sua arte pela última vez. Que sua vontade seja feita: Nunca mais a veria, apenas não com aquele par de olhos. Ele Já tinha tanto medo... Que as janelas morreram. Ele já tinha tanto medo... Que os relógios envelheceram. Ele já tinha tanto medo... Que já era um pintor sem cores, um escritor sem palavras, um musicista sem melodia. Ele já tinha tanto medo, que era um artista sem ser. Mas ele já não tinha mais medo era das suas noites sem seu astro – de perdê-la –, e por não ter, viu-a partir, escapar de seus olhos relutantes; pela última vez a cada nascer do Sol.



— Tolo! Não irá tocar na Lua, a menos que sejas o Sol, ou o universo.
— Quer apostar? A Lua é vaidade, e como em toda vaidade, há pecado.
— Apostado. Por que a Lua seria vaidade? Considerando que se fosse, ela exibir-se-ia através de seu próprio brilho. Além do mais, o pecado só faz morada nos mortais!
— Ora, pois! Isso prova o quão mortal ela há de ser, além de vaidosa, ainda é invejosa!
— E por que seria?
— Porque ela tem inveja das estrelas, e usa o amor do Sol por si para vangloriar-se.
— E como sabes da sua vaidade?
— Simples! Está vendo essas águas? Ela as usa como espelho e, já ganhando a aposta, também lhe provo que posso tocá-la. — Ele nadou até o reflexo tremulante do astro e cortou-o como um desbravador de territórios, tocando os dedos finos na bandeira cristalina, conquistando sua conquista. — Viu só? E lhe digo mais: também posso beijá-la!
— E como faria isso? Afogando-se? — Ela atravessou o lago até ele, precipitando-se de socorrê-lo, caso necessário.
— Não, não. Ela é tão humana quanto a ti, assim como és tão Lua quanto a Lua! — Então ele empurrou-a para baixo do reflexo, onde o luar fez-lhe projeção e, provou do gosto do beijo nunca dado, do inalcançável alcançado. O gosto que por muito não morreria em seus lábios, mas que o levaria à morte de antemão. As guerras não hesitam em alcançar os que alcançam.

sexta-feira, 4 de março de 2011

Mausoléu de Travesseiros

Seria tão mais fácil se eu também adormecesse, para que assim eu pudesse acordar quantas vezes fosse necessário, até que tudo não transcendesse um cruel pesadelo de temores infantis. (Talvez eu seja o Bicho-Papão das noites de alguém. Pois monstros nunca dormem.) Mas o cardápio das minhas fantasias não é disciplinado para saciar minhas vontades. O garçom só me serve café!

“My Silence Knot”

O Poeta separou-se de sua amada Aliteração, e A Vida-viúva lamenta, sobre a lápide de outro lençol.
ㅤㅤㅤNão chegarás a um resultado sem evidências. Sem base números vestígios pistas testemunhas provas cálculos fontes teorias. Você não me viu, porque olhou com os olhos. Tampouco enxergou a vírgula, ou os trinta e cinco tons de preto. Olhos são tão confiáveis quanto apoiar-se em minha existência. Ou se você for A Existência, (perdoe-me pela ofensa em dissolvê-la aos humanos), quanto apoiar-se a mim. Mas se você fosse A Existência, – o que suponho cegamente que não seja –, saberia que o Sol está morto e que tem um falso Sol reinando sobre olhos-soltos. Sendo assim, saberia que a morte d’O Sol é um mistério e, que os mortais nem desconfiam. Saberia então que não desconfiam porque O Mistério foi descoberto. Sendo assim, saberia quem sou. E sabendo quem sou, não mais saberia de nada.
35 tonalidades de Preto;
Há o preto-carvão, que eu o atendo por Solidão. O preto-carvão é o Bicho-Papão. Na solidão você o encontra embaixo da cama. Esquecido pós-infância. E no desespero da infinda escuridão, você exige que então ele – o seu medo já maturo -, ponha-lhe um fim prematuro, pois a tortura (preto-nuance) é a mais sábia das persuasões. Entretanto, seu medo (que cresceu consigo) não é vassalo. Ele convida-te a goles de companhia d’A Solidão. Você, que erroneamente crê que nada mais tem a perder, aceita. Ébrio e viciado, você vende todas as outras por mais preto-carvão... 

Voodoo Doll

Acreditas que és d’A Verdade e tornaste vassalo da persuasão de um par de olhos de vidro. Boneca de porcelana, foste forjada somente para iludir. Criança, já perguntaste quantos outros rostos mansos ela observou dormir? E quais ela cobriu por algum lençol? Nenhum seio lhe dera leite. Nenhum amor lhe fizeste fruto. Não percebes que seu encanto tem gosto de meigos corações mortos? O único laço que possuíste é o que delineia sua cintura. Criança, mamãe nunca lhe disse para negar presentes de estranhos? E quanto menos desenterrar um? Mas por ti, como por todos os outros, pouco importas se em suas costas há um arsenal de alfinetes, quando o que queres avidamente é apenas ser mais um destes.

O crime d'O Artista

ESSAYES, FAITES UN VOEU.
ㅤㅤEis que, três vezes a cabeça do Artista em leilão, sendo O Sr. Suicídio credor de propostas utópicas, não há martelo que cale-se. "Dou-lhe uma, dou-lhe duas..." Mas há garganta que grite. Assim como há gatilho e dedinhos medrosos que hesitem. Não houve a quarta vez. Não houve obras órfãs e um vizinho novo em Necrópole. Mas existiu um Artista brincando de Deus. E uma paixão doente, por uma garota feita de tinta. Por um coração esquálido. Um coração de papel. 
 La Fée Bleue secoue son voile.
(Amigo, sonhos - mortais, - todos já se foram. Amanhã também te vais.)
"Ninguém admira um céu azul quando o têm todos os dias. Iguais, só lembram-se da paz, quando não a tem mais." O Artista então concedeu olhos alemães às suas observações – para que ela pudesse enxergar o espírito das palavras –, e escolher a dedo com quais tocaria o dos humanos. Aos seus acordes, O Artesão despiu O Ouro. Roubou o seu valor e deu à sua criação como cor dos cabelos. A cor d’A Veneração. Assim, fez dos homens seus títeres – para que cada fio dourado manipulasse-os como um ditador, embora vistos por olhos de cordeiro, como o seu fiel pastor. Ele deu à Saudade um rosto. Moldado em porcelana fria. Aquela face que se vê em todos, mas todos não têm. Aquela face naufragada de vontade... Aquela face que se procura, mas não encontra. E, quando encontra, é nos braços d’O Adeus. À sua alma, ornamentou em ébrio de Indiferença – para que assim, o gosto efervescente d’A Glória fosse tão tépido quanto d’A Derrota. O Artesão inventou a cor d’A Dor (a dor de um artista), a quem auto-julgou sua aquarela. Rasurou-lhe com um coração desnutrido de carvão e sombreou-lhe o céu de palavras engasgadas. Como se despejasse o peso de seu pincel em borrões... Um quadro melancólico. De um vazio infindo. Com um anjo estranho. Um anjo caído que parecia recortado e colado de outro cenário. Culpado pelos enfermos de seu criador. Respirando o seu Pandemônio. O Artista a castigou – para que A Dor justificasse seus meios e a convencesse sempre de sua vil razão. A Dor que nunca deixou de faltar-lhe como sombra.
[...]
ㅤㅤㅤMas ainda havia. Havia uma terceira pessoa que a vigiava em linhas. Preenchia espaços de vazios. O Narrador Artista deu-lhe vida em cada vírgula. Ele a encontrou em cada devaneio. Ele a construiu de cada ideal, que implorou ser real. Pois bem, A Fada-Azul – que não era fada e tampouco Azul –, arrancou-a das páginas. Ela presenteou a Garota feita de Tinta com A Consciência – mas de longe era sua Ausência. Para íntimos, Sociopatia. E então, fez-lhe uma menina. Uma menina de mentira.

Cata-Vento

Caro torpor,
Por que eu deveria resistir aos seus comandos? Sendo que, tão pobres quanto nobres sejam as intenções dos corações, acabam sempre com uma bala no peito ao consentir em reagir. (Ou não.)

Cara estrela diurna,

Ou como queira, caro Sol, a princípio fico satisfeita que O Vento não tenha extraviado minha proposta dentre suas valsas, ou deixado esta carta de suma importância com O Tempo propositalmente, já que em matéria de reflexão, é provável que vocês não se dão bem, e isto já é uma oportunidade de conciliação subentendida, se é que me compreendes. Mas estou ainda mais satisfeita por ti não ter derretido esta proposta em letras choramingonas, pois no mundo dos mortais ainda não inventaram um método de comunicar-se com os astros em envelopes de astros.

Caro Sol, herói dos mortais, peço-lhe em teu nome que renuncie seu cargo e acorde jamais. Se recusas, serás inevitavelmente meu cúmplice e traidor. Já pela manhã serás os olhos e o locutor do horror: a áurea de um monstro, o servo ao meu favor. Iluminarás uma pilha de cadáveres, para os amantes de seu calor. 

Lepidópteros; Manual de instruções.

Já somos artistas. Já somos intérpretes diplomados. Vestimo-nos com a pior máscara pelo prazer de impressionar. Destacamo-nos por atos julgados como desprezíveis. Esse é o nosso palco onde recusamos aplausos. Admirados ou tolerados, estamos sendo avaliados. Eu fui reprovada e é assim que você deve agir, meu amigo. Borre seu rosto com as tonalidades mais fortes da aquarela. Olhos vermelhos, contornados pela maquiagem natural da insônia. Compre vinhos baratos e banhe seu corpo no aroma. Venda sua dignidade por dinheiro. Acenda o filtro do seu cigarro Marlboro e trague até o ar tornar-se plástico. Mate sua alma. Corroa seus sentimentos, mas saiba interpretá-los quando as cortinas carmim abrirem-se. Vá para cadeia ao menos uma vez. Pouse nas avenidas quando o céu chorar. Conquiste o nojo de um exército. Manche suas mãos de sangue. Destrua os sonhos de muitos. Tema o Sol e venere os becos escuros. Faça dos palavrões seu idioma. Trinque os espelhos. Rasgue as roupas que escondem seus braços tatuados por cicatrizes. Fuja de casa pela madrugada e compre uma lápide no cemitério para dormir até as trombetas ressoarem ao seu ouvido. Suicide-se antes que as rugas destruam sua máscara convidativa. Morra jovem e perpetue-se, porque somos apenas mariposas entre borboletas.

Ratoeira para Humanos

As estações pararam no inverno. Está nevando sangue, ou faz parte das minhas alucinações? O tempo foi ceifado junto das preces. Mas as horas estão agressivas e você pode perceber à sua volta e em você. Costure seus olhos para não enxergar seu desumano julgamento, antes que os pássaros que residem nos cemitérios os dilacerem. Cuspo-te as dúvidas. Não achará respostas para contradições. Faça coro com os mortos, enquanto sua mente dança com demônios na marcha fúnebre de seu enterro. 
I∙Wrath. Eu sou o talento dos delinqüentes e a munição dos suicidas. Rasuras de um poeta sádico e devaneios de um insano genial. A inspiração dos carrascos e temor dos corações. Uma face sem rosto, um rosto sem face. Interpreter. Mostre-me seu desespero, porque você é tão belo na dor. II∙Gluttony. Represento o estômago das chamas gélidas infernais e a garganta dos demônios. A febre me consumiu e já não sinto nada, mas tenho fome. E é pelo seu medo. III∙Envy. Construa-me na insatisfação da indiferença, trapaça dos gatunos, conflito do vazio e nos aplausos de escória. IV∙Pride. Aprecie-me no flerte da virgem encapuzada e no beijo amargo de seu perecer. SCREAM, SCREAM, SCREAM! Sinta-me na áurea do terror e no incentivo do torpor. Ouça-me na voz do silêncio. V∙Greed. Veja-me na máscara torta do egocentrismo. Em um sorriso de escárnio evidente e no desprezo dos sábios. Die! Agoure-me no manto que cobre o Sol melancólico. VI∙Sloth. Desenhe-me na ausência de aquarela. Fall! Ache-me no berço da guerra, retina da glória, legado do descaso e na corrosão do ranger. VII∙Lust. Cobice-me na maldição que zela os diamantes e na benção das sombras. Eu sou a beleza das ninfas. O excessivo e a exigência. Música desprovida de melodia e o canto doce da morte. O abraço do frio. 

R.I.P Cartas

O céu chora desconsolado em seu velório, querida sanidade. Eu velei-te por três dias e três noites. O véu de luto faz as honras da máscara. Desculpe-me pelas algemas, eu ando cortando em navalha fina asas de borboletas. Lembras-te do nosso quarto de composições ao piano? Construí um cenário de suicídio em cada província. Estou alvejando hoje a virgem de preto com o circundar das câmaras do revólver do papai, que descansava em sete chaves no cofre. Nele mora uma bala que não é de açúcar. Mas é doce, tão que eu anseio prová-la brincando de roleta russa no auge da madrugada. Há muito não vejo a mamãe, mas ela tatuou em mim suas mãos na última vez. Não foi porque experimentei o gosto de seus batons, mas sim por marcá-los em cada um de seus amantes que forneceram dinheiro ao passear em seu corpo. Dessa vez ela me fez sentir o mármore do chão. Desmontei em cacos de porcelana fria. Mamãe chorou baixinho, e tentou remendá-los e perpetuar-me dentro de uma caixa de sapato. Mas minha morada agora é a prisão. Aqui eu me visto com as vestes frias que o papai já folgou. Estou cursando sua profissão e me revelando um prodígio. Nessas grades o tempo conspira para que eu possa me expressar em poemas melancólicos plagiados. Rasurei muitos. Não sei o que sucede-se por detrás do aço e concreto ultimamente, embora tenha consciência de que ainda sou – e serei – a insônia de muitos. Oh, sanidade, está em minha hora de despedir-me de ti para sempre! O caixão está descendo e as rosas sangrentas cobrem sua áurea... Espero que vagueie pelo mundo dos mortos de olhos costurados. Não te permitas me ver. Eu sou o corvo conformado em uma gaiola construída por desespero. Observando os pássaros – sem dom – se debaterem pelas brechas de esperança forjada. Eu asfixio minha abstinência e adormeço (pereço) em meu apropriado travesseiro – as margens do vaso sanitário – em minhas condicionais. Vômito-te; O banheiro é a igreja de todos os drogados e bêbados.