“Invente-me.” Íris-lunar, cênica, atuou para além de suas fases. Exigindo o artista sem que lhe faltasse. Os ombros nus. O corpo nu, perecendo em febre. “Lembras-te que eu somente era tela vazia sem ti?” Ele não levantou os olhos do mármore. Ela estava distante. “Restaure-me. Perdi o seu eu de mim.” Ele estremeceu, mas não levantou os olhos do mármore. O pincel gotejou. Ela continuava distante, muito distante. “Dê-me cores. Dê-me vida, por favor. Faça-me mapa, sejas-te o meu explorador. Ou faça-me estrela, sejas-te o meu louco observador. Mas faça-me, e então sejas-te.” Lamento, mas ele não ergueu os olhos. Não empresou suas mãos de tinta em sua face. Não a inventou, e, como tudo o que não foi descoberto, ela foi riscada do existir. E logo o vento, amante dos fins, sua parte fez. Confundiu-se em ondulações prateadas, e como maré e brisa, as mãos de tempo acariciaram-na por ele – manchando-a de adeus –, levando a sua amada eternizada, assim como feito aos contos inacabados, para que assim o artista não mais pudesse voltar para eles reeditando-os. Levou-a, mais uma e última vez. E aqueles olhos de artista – já fatigados de perscrutar os pores-do-sol e os horizontes –, perderam os de sua arte pela última vez. Que sua vontade seja feita: Nunca mais a veria, apenas não com aquele par de olhos. Ele Já tinha tanto medo... Que as janelas morreram. Ele já tinha tanto medo... Que os relógios envelheceram. Ele já tinha tanto medo... Que já era um pintor sem cores, um escritor sem palavras, um musicista sem melodia. Ele já tinha tanto medo, que era um artista sem ser. Mas ele já não tinha mais medo era das suas noites sem seu astro – de perdê-la –, e por não ter, viu-a partir, escapar de seus olhos relutantes; pela última vez a cada nascer do Sol.
— Tolo! Não irá tocar na Lua, a menos que sejas o Sol, ou o universo.
— Quer apostar? A Lua é vaidade, e como em toda vaidade, há pecado.
— Apostado. Por que a Lua seria vaidade? Considerando que se fosse, ela exibir-se-ia através de seu próprio brilho. Além do mais, o pecado só faz morada nos mortais!
— Ora, pois! Isso prova o quão mortal ela há de ser, além de vaidosa, ainda é invejosa!
— E por que seria?
— Porque ela tem inveja das estrelas, e usa o amor do Sol por si para vangloriar-se.
— E como sabes da sua vaidade?
— Simples! Está vendo essas águas? Ela as usa como espelho e, já ganhando a aposta, também lhe provo que posso tocá-la. — Ele nadou até o reflexo tremulante do astro e cortou-o como um desbravador de territórios, tocando os dedos finos na bandeira cristalina, conquistando sua conquista. — Viu só? E lhe digo mais: também posso beijá-la!
— E como faria isso? Afogando-se? — Ela atravessou o lago até ele, precipitando-se de socorrê-lo, caso necessário.
— Não, não. Ela é tão humana quanto a ti, assim como és tão Lua quanto a Lua! — Então ele empurrou-a para baixo do reflexo, onde o luar fez-lhe projeção e, provou do gosto do beijo nunca dado, do inalcançável alcançado. O gosto que por muito não morreria em seus lábios, mas que o levaria à morte de antemão. As guerras não hesitam em alcançar os que alcançam.