quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Espelhos Não Mentem, Pt. 2



Endereço: “Siga os tijolos amarelos.”

Carta nº 2. 04h3min. Não lembro-me. AM.
1 de dezembro. 1982. 0ºC.


Caro doutor,


 Me vem a impressão de muita carta ter se perdido, partido, chegado, chegado cedo, cedo demais. Tenho a impressão que muitos olhos se demoraram a desgarrar-se delas, talvez por não se ter entendido, talvez por não se querer entender, ou, talvez, por esses olhos serem condenados; olhos de cartas... Tenho a impressão de muitos ex-pacientes, e muitas sopas de pepino ainda sendo preparadas. Tenho a impressão de muitas impressões mal feitas, e muitos exames refeitos. Tenho a impressão de padeiros comprando pães e psicólogas fazendo psicanálise e pacientes de estetoscópio. Tenho a impressão de macas contarem minhas costelas e outras contarem as horas para a hora de contá-las. Tenho a impressão de óculos de grau contando vantagens, e de máquinas de costura terem confundido minhas costas com alguma encomenda, pela baixa auto-estima de todas as máquinas. Mas, tenho, sobretudo, a impressão de não ter algodões em meu nariz e talco em minhas marcas. E quanto às rosas artificiais? Em minhas mãos só torcem canetinhas hidrocor, que fahalm tant0 qunto minha cooordnaçõ6. Meu nome deveria jazer na calçada da fama de algum memorial-de-ninguém-conservado, com uma de minhas mais enrugadas fotografias engatinháveis, para que me reconheçam só quando irreconhecível! Morrer me era planejamento de vida, doutor... Dos mortos nenhum vivo guarda mágoas... Por que da morte não me perdoar, então? O que houve de errado enquanto a anestesia me embalava? O que mais houve de errado? O que mais houve de errado para mais um erro se deixar pra ser ouvido depois? Foi o pêssego que aprendeu a delinear os lábios por si só por dicas de revistas que pregam “vaidade ser felicidade”? (Peça-a para me fazer uma visita, um dia desses. Mas que seja antes dos analgésicos e antes das moscas. E que, se possível, fique para outro dia...) Ou foi sua esposa que esqueceu o número do seu cartão de crédito, e assim engraxou o sapato do jardineiro? Ele não checou as moedas após ela dar as costas com as costas das mãos? Dê-me os diagnósticos do mundo: O que houve de errado? O senhor fez aulas de caligrafia, ou alguém as fez para compreender a sua? Levantou finalmente os olhos do paletó, numa consulta de pacientes estranhamente amarelados? Ou acertou inconvenientemente uma operação? Diga-me, por favor, o que mais poderia dar errado, doutor? Quando os espelhos, agora, me mentem...




Respeitosamente,


Seu paciente... 
Integral. 

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Espelhos Não Mentem, Pt. 1



Endereço: “Siga os tijolos amarelos.”

Carta nº 1. 04h51min. Dom. AM.
31 de outubro. 1982. 6ºC.

Caro doutor,


 Trago-te notícias ruins, notícias boas. E há rumores de sou, e de que elas se espalham rápido, como aquarela chorosa, que nem sempre escorre obediente, ou como os inchaços, que jamais são desobedientes em ser desobediente. Trago-te notícias que carteiro algum gostaria de entregar e o mais curioso espiar. Mas o fazem todo o tempo. E não mude a decoração do balcão de recepção por ela apenas, também, ceder ao cheiro de dinheiro. (E quem alegará, que não é mesmo contagiante, doutor? Você pegou minha causa como uma prostituta abre as pernas para qualquer aidético de gel no cabelo. E agora, já temos algo em comum.) Sabe, eu detesto surpresas, inclusive quando a surpresa não é de forma alguma surpresa. E será uma surpresa sem ser de forma alguma surpresa, caso aquele batom pêssego mal contornado seja substituído por um sorriso bem disposto, como o sorriso de plástico embalado de uma madame recém-divorciada. E talvez você, embora tenha decorado tantos livros tediosos, ainda não saiba que o jardineiro que apara suas rosas, sabe que nenhuma flor na cômoda resistirá à feiúra do mundo; mesmo que ela não murche, a saber, que seu jaleco fica no cabide em sua residência, se desmemoriará tarde que não há exceção para com seus piores pacientes não descansarem em seu travesseiro, quando sua mulher exausta de exercitar-se por entre lojas e lojas de cosméticos, recusar-se a derramar os fundos daquelas butiques, que o senhor lambe, como se fosse valer o preço do produto, enquanto o piso lustroso do hospital desde sempre é bem mais vivo do que a madeira envernizada da sua humilde mansão. Portanto, doutor, eu espero que essa carta seja como um dos narcóticos da dor, que ainda não deram o passe para a receita (e bem que o senhor poderia reconsiderar, acelerando o caso, ou pormenor, parar aquela acusação de assinatura forjada que eu juro, pela minha saúde, não a ter cometido), para nós. E mesmo sendo esta uma carta fugitiva ou uma sobrevivente (que eu bem gostaria de sê-la) do seu hospital cinco-estrelas, ela consegue arrancar um suspiro invejável de alívio seu, um suspiro quase tão cético quanto o seu convencimento de milagres, (embora tenha me confiando a eles), por não ser carimbada de marcas cinco-estrelas, que a sua cinco-estrelas se mantém cinco-estrelas e também, elas. E eu, ah, eu estou urgentemente precisando de uma psicanálise com a imunidade alta e, talvez, caso a TV não esteja reportando canais sensacionalistas por vez da voz em sua cabeça, você já o tenha notado. Ou talvez eu só precise de uma operação mal sucedida. Ninguém discordará de seu sucesso.



Respeitosamente,

Seu paciente em plantão integral. 

sábado, 20 de agosto de 2011

"De qualquer forma, ela não lerá..."

Caça Palavras

 Penso. Penso que talvez, Eu pense, e por isso tenha se mandado para o outro. E não posso competir com ele. Não... Eu o invejo. E me disseram que isso é tão feio. Procuro em liquidação sorrisos de pele. Pele da cor. Cores que não desbotam nas banheiras, e banheiras que não desbotam pulmões. Ele se lembra de tudo, e do futuro nem sonha que não o lembrará. Ah, e ele sonha... Ele tem pesadelos e acorda e se levanta, quase sem ânimo. Quase. Ele não esconde farmácias no fundo das gavetas. E ele encara mais os tetos do que as estrelas. Ele espera os créditos no final das cessões. E ele não é induzido a existir. Ele faz a barba, com muitas, muitas falhas. (Mas muitas não são todas!) E a lâmina é somente uma lâmina. E ele fuma, mas está prometendo parar por ela. (E torce para que esqueça e a esqueça.) Está apaixonado pela sua psicanálise. Não, pela sua ética. Não, não, ele está apaixonado pelo seu psicológico incurado, que o terminou, mas não o terminaram.

[...] Anos pálidos, balançando a cabeça, ela, sim, ela lhe contata, quase que com colírio nos olhos: "Não há nada que eu possa fazer mais pela sua causa". E como “batata quente, quente, quente” ele vai passando de consultório à clínicas, jasmim à éter, papéis de parede à cimentos, quintas à domingos, outro à ele, outro à queimou, queimou à queimou! Oras, ele é humano! E essa foi a deixa para deixar de ser. Mas é barato... É barato que o barato no passado, é que vale caro para mim lembrá-lo. E Eu sei... Mas não me lembro de muita coisa, também de muito nele. E é por isso que Eu tenha se ido para mim. Não me lembro... Eu não me lembro de como me ser. Mas no outro de outra das mesmas estranhas entranhas, decorei o telefone da última indicação. Ela não me cobrou a promessa.

sábado, 6 de agosto de 2011

"Lamento doutor, mas suas letras na receita, não conseguiram ler-me."



 Esta é, uma carta de suicídio. Mas não precisa ser sua. E escrevê-la, é a mais fácil de todas as minhas mortes, formar palavras, até p’ra um principiante na morte de viver, sabe que é bem fácil desenhá-las, plagiando as do quadro negro, com pressa de anunciar o “Terminei!”, p’ra então sair correndo aos atropelos, e agarrar-se no alívio que a sensação d’um recreio proporciona. O que não é nada simples, é lê-las, (não somente por estarem rasuradas, feitas de cinzeiro ou de teste p’ra descoberta da técnica de tingimento por café). E eu não as lerei. Não as lerei p’ra não (morrer a minha vida) viver a minha morte de novo e de novo, embora eu saiba que não haverá nada de novo. Apenas o nada, de novo. Aqui jaz minha prova, corrija então meu erros, Vida! E me reprove, p’ra que então aprove como o meu desistir é resistência; de morrer por você.


 Estou a decepcionar todos que ficam. Mas não por ir; por tentar ficar. Eu tentei... É poético o suicídio, minha verdade não. A verdade é que se houvesse um “ou”, eu teria aqui, uma carta de suicídio fracassada e uma armação de cordas p’ra desfazer presa ao teto mudo, antes que alguém violentasse a porta e gritasse desnecessariamente. Não seria tarde, como quando você estiver desobedecendo o meu conselho na véspera, a menos que eu o tenha rasurado. E não pretendo deixar outro; o doutor me alertou com doses de comprimidos, receitas e raios-X, mesmo assim eu não desisti, embora você, possa talvez jurar que eu o tenha, e mesmo assim; fui longe demais... Minha vaidade ainda é mais impotente que meu reflexo; minha indolência também. Mas eu tentei não tentar. Decorei auto-ajudas, drogas legalizadas, mesmo quando sendo a pior de todas elas. Prometem o recomeço, mas lhe deixam no prazo da vida d’uma borboleta. Até mesmo deixei um copo cheio pela metade, mas a água evaporou, se arrependendo antes mesmo que eu, dessa expressão, se é que eu a aceitei no acertar... Com as tintas não foi concorrência, partiram na povoação de todas elas (gastei minha economia por Mary Jane e Dalila, pelas cores de seus mundos, a colorir o meu); a solidão do cinza convidou a forca p’ra maquiar o meu rosto em sua aliança. O mais difícil foi atualizar o calendário, mas não mais do que consultar o espelho, e ter a confirmação dele. Parecia mais espantado do que eu. E enquanto procurávamos o eu, o chiado agonizante da TV assistia as tentativas de fracassos serem eficazes, sabendo que o incentivo p’ra os meus frangalhos desde sempre comoveu o sucesso. E sabia que eu me encontraria quando a forca me fizesse mímica (estendo-se como corda apenas a salvar o meu suicídio no resgate):

Novamente; eu mataria a charada.

 A inspiração de qualquer tragédia pegajosa acabou. E agora, é que o agora me intervém: “E agora?” [...] “É agora.” É agora que acabou o verbo no futuro, e até mesmo dum presente, (mas não o agora). É agora que a folha, que até ontem amanhecida era sem graça, acaba-se agora superando em seu diminuto, carimbada num sofrimento ensaiado, sensacionalizado, em memória de alguém que poderia se despedir em adéquo por qualquer insuficiência de página vazia. Memória plagiada de Ninguém. Dor cinza. É agora que o agora dopa-se.  “Tic-tac, tic-tac, tic. Tic. Tac.” [...] Minhas mãos estão enrugadas, como quando uma criança se demora  na banheira. E se debate, por não querer sair, sem sequer desconfiar que ela estará cheia de moscas num presente (presente p’ra qualquer “bip bip bip” fadigado; prejuízo p’ra o comércio de cigarros e entorpecentes), por confiar em si. (E então, não poderia deixá-la mesmo que quisesse. E agora?)  Sobretudo; eu tentei. Me espremi na vida, como as palavras aqui. Infelizmente, não coube o pouquinho do nada em tudo. E estou com pressa de terminar mal, quando eu deveria prostituir palavras p’ra lhe convencer a abrir o zíper da sua adoração; por um bezerro de ouro morto. Isso me cai bem, mas não quando sua oração de mim, não será por me salvar, isso... E nem devesse...  Se deveria parar por aqui, deveria. Mas se parado ainda ficar devendo, rarefaça o esquecido que me já esqueci há muito: A culpa, mesmo azul, posta em paradoxal a arranhões dolosos e cúmplice de um pulo embalado pelo impulso, que torna sem pulso; mesmo tarde, ou tarde demais, ou indiscutivelmente tarde demais, ainda é muito cedo p’ra não mais ser minha.



A solução de vida por quem vegeta, sempre foi não sentir; saudade dela.


[...]


Por baixo, agora ela está alta. Tão alta...

 E o doutor de alta.