Endereço: “Siga os tijolos amarelos.”
Carta nº 1. 04h51min. Dom. AM.
31 de outubro. 1982. 6ºC.
Caro doutor,
Trago-te notícias ruins, notícias boas. E há rumores de sou, e de que elas se espalham rápido, como aquarela chorosa, que nem sempre escorre obediente, ou como os inchaços, que jamais são desobedientes em ser desobediente. Trago-te notícias que carteiro algum gostaria de entregar e o mais curioso espiar. Mas o fazem todo o tempo. E não mude a decoração do balcão de recepção por ela apenas, também, ceder ao cheiro de dinheiro. (E quem alegará, que não é mesmo contagiante, doutor? Você pegou minha causa como uma prostituta abre as pernas para qualquer aidético de gel no cabelo. E agora, já temos algo em comum.) Sabe, eu detesto surpresas, inclusive quando a surpresa não é de forma alguma surpresa. E será uma surpresa sem ser de forma alguma surpresa, caso aquele batom pêssego mal contornado seja substituído por um sorriso bem disposto, como o sorriso de plástico embalado de uma madame recém-divorciada. E talvez você, embora tenha decorado tantos livros tediosos, ainda não saiba que o jardineiro que apara suas rosas, sabe que nenhuma flor na cômoda resistirá à feiúra do mundo; mesmo que ela não murche, a saber, que seu jaleco fica no cabide em sua residência, se desmemoriará tarde que não há exceção para com seus piores pacientes não descansarem em seu travesseiro, quando sua mulher exausta de exercitar-se por entre lojas e lojas de cosméticos, recusar-se a derramar os fundos daquelas butiques, que o senhor lambe, como se fosse valer o preço do produto, enquanto o piso lustroso do hospital desde sempre é bem mais vivo do que a madeira envernizada da sua humilde mansão. Portanto, doutor, eu espero que essa carta seja como um dos narcóticos da dor, que ainda não deram o passe para a receita (e bem que o senhor poderia reconsiderar, acelerando o caso, ou pormenor, parar aquela acusação de assinatura forjada que eu juro, pela minha saúde, não a ter cometido), para nós. E mesmo sendo esta uma carta fugitiva ou uma sobrevivente (que eu bem gostaria de sê-la) do seu hospital cinco-estrelas, ela consegue arrancar um suspiro invejável de alívio seu, um suspiro quase tão cético quanto o seu convencimento de milagres, (embora tenha me confiando a eles), por não ser carimbada de marcas cinco-estrelas, que a sua cinco-estrelas se mantém cinco-estrelas e também, elas. E eu, ah, eu estou urgentemente precisando de uma psicanálise com a imunidade alta e, talvez, caso a TV não esteja reportando canais sensacionalistas por vez da voz em sua cabeça, você já o tenha notado. Ou talvez eu só precise de uma operação mal sucedida. Ninguém discordará de seu sucesso.
Respeitosamente,
Seu paciente em plantão integral.
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