Endereço: “Siga os tijolos amarelos.”
Carta nº 2. 04h3min. Não lembro-me. AM.
1 de dezembro. 1982. 0ºC.
Caro doutor,
Me vem a impressão de muita carta ter se perdido, partido, chegado, chegado cedo, cedo demais. Tenho a impressão que muitos olhos se demoraram a desgarrar-se delas, talvez por não se ter entendido, talvez por não se querer entender, ou, talvez, por esses olhos serem condenados; olhos de cartas... Tenho a impressão de muitos ex-pacientes, e muitas sopas de pepino ainda sendo preparadas. Tenho a impressão de muitas impressões mal feitas, e muitos exames refeitos. Tenho a impressão de padeiros comprando pães e psicólogas fazendo psicanálise e pacientes de estetoscópio. Tenho a impressão de macas contarem minhas costelas e outras contarem as horas para a hora de contá-las. Tenho a impressão de óculos de grau contando vantagens, e de máquinas de costura terem confundido minhas costas com alguma encomenda, pela baixa auto-estima de todas as máquinas. Mas, tenho, sobretudo, a impressão de não ter algodões em meu nariz e talco em minhas marcas. E quanto às rosas artificiais? Em minhas mãos só torcem canetinhas hidrocor, que fahalm tant0 qunto minha cooordnaçõ6. Meu nome deveria jazer na calçada da fama de algum memorial-de-ninguém-conservado, com uma de minhas mais enrugadas fotografias engatinháveis, para que me reconheçam só quando irreconhecível! Morrer me era planejamento de vida, doutor... Dos mortos nenhum vivo guarda mágoas... Por que da morte não me perdoar, então? O que houve de errado enquanto a anestesia me embalava? O que mais houve de errado? O que mais houve de errado para mais um erro se deixar pra ser ouvido depois? Foi o pêssego que aprendeu a delinear os lábios por si só por dicas de revistas que pregam “vaidade ser felicidade”? (Peça-a para me fazer uma visita, um dia desses. Mas que seja antes dos analgésicos e antes das moscas. E que, se possível, fique para outro dia...) Ou foi sua esposa que esqueceu o número do seu cartão de crédito, e assim engraxou o sapato do jardineiro? Ele não checou as moedas após ela dar as costas com as costas das mãos? Dê-me os diagnósticos do mundo: O que houve de errado? O senhor fez aulas de caligrafia, ou alguém as fez para compreender a sua? Levantou finalmente os olhos do paletó, numa consulta de pacientes estranhamente amarelados? Ou acertou inconvenientemente uma operação? Diga-me, por favor, o que mais poderia dar errado, doutor? Quando os espelhos, agora, me mentem...
Respeitosamente,
Seu paciente...
Integral.
Integral.
Nenhum comentário:
Postar um comentário