CUIDADO, CONTEÚDO FRÁGIL
Você pode perceber; pela brecha da porta que se debate a ter de ficarmos a sós, e pelos cacos cá e ali pós-crise no piso encerado, e as muitas sondas rompidas – e eu prossigo com o romper de todas –, e as seringas a violentar meu pulso já de partida, e os arranhares no meu quadril, e as bolhas nos meus lábios; que definitivamente, eu não sou a garota mais confiável para se deixar objetos cortantes ao alcance, e que bem, a morte é pra lá de seus atrasos quando se marca hora, e a vida é virtude apenas de seus queridinhos. Oh, e às vezes venho a parecer que estou tremendo, – mas meu caro, é só a febre –. E parece que estou sonâmbula, – mas é apenas o ópio vindo a certificar-se do ronco do doutor. Se estivesse mais frio eu poderia derreter. Se eu fosse uma uva-passa eu agiria de acordo com a minha idade. Se eu fosse de bem, (ainda assim), eu não acho que você acreditaria em mim, não-é-o-jeito-que-eu-deveria-ser; é só o jeito que a operação tem me resolvido.
Você pode perceber; pelo estado do meu quarto, – e do meu quadro –, que eles me liberaram muito, muito cedo. E os remédios que consumi, vieram alguns anos tarde demais. E eu tenho algumas questões a tratar... Como traçar-me de ti, fazendo de faz-de-conta que, possuo uma alma para além dessa superfície turva. Possuída. Então meça-me a profundidade por si só, com um par de pés, e estarei logo a te convencer do quanto isso foi; acidentalmente de propósito.
A ALEGRIA JÁ NÃO MAIS TEM ENDEREÇO
ME TRANCAM NA GAIOLA, E ESPERAM QUE EU CANTE COMO ANTES
E não é sempre do eufemismo lidar com meu eu prosaico; esse lirismo é só um pensativo à parte, um plágio re-editado, assomado de porra alguma a apurar o nosso orgasmo. Mas eu posso abrir as pernas do seu século para me caber, – apenas em só uma rarefeita ocasião. Já que, fui retirada antes da dor do parto calcificar meus ossos...
Você pode perceber; pela vermelhidão nos meus olhos, e os hematomas nas minhas coxas, e os nós no meu cabelo, e o ralo ineficiente, e pela banheira cheia de moscas, que eu não estou certa de forma alguma. E lá vou eu de novo, simulando que vou cair... Não chame os médicos! Essa cena é mais um improviso de ensaios. Já já num coro eles vão te coadjuvar: "Apenas-a-deixe-se-espatifar-e-arrematar-seus-votos-matrimoniais-com-a-maca. A atenção só a encoraja..."
Você pode perceber; pelo gesso envolto no embalsamar da minha carne dormente, que eu lamento por ter perguntado... E ainda que mais; posso ser contagiosa, portanto não toque! Você vai começar a acreditar que é imune à gravidade e tantos desses vários... E não me molhe! Ou senão os curativos vão se desprender.
DESCANSE EM PAZ
JAMAIS SERÁ ESQU
E você pode perceber; pelo féretro de mobília, que o meu estado atual é crítico. E no tempo que leva para o ‘bip, bip bip’ ser interrompido, posso inventar-te quantas desculpas convir seu descuido, como: "Por favor, perdoe-me pelo não-me-lembro-o quê. É só o efeito dos medicamentos a me cometer." E eu não necessariamente acredito que exista cura de mim própria... Então eu posso entrar pro seu século, – mas apenas como uma hóspede terminal. E no fim, sou apenas um bocado imoral; eu fui precariamente removida numa cesárea! Então doe-me lágrimas a envernizar meus olhos, para que talvez assim, eu enxergue a vida à seu modo.
Baseado na composição Girl Anachronism, de Dresden Dolls.
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