quinta-feira, 6 de outubro de 2011

“Estranho, prazer em conhecê-lo.” “O prazer é todo meu.”

Quanto mais o sótão de você conhece, mais de estranho se parece.
Eu deveria ter levado a porra d’uma lanterna.
Eu não deveria ter levado uma lanterna.

Sanatório St. Andrews. Palavra legal, não? Sanatório. Nada parecido com a realidade daquela pocilga. Fui vê-lo antes que o demolissem no fim dos anos 70. Ainda fedia a mijo e desinfetante de pinho. Corredores compridos e mal iluminados com quartos pequenos, parecidos com celas, nas laterais. Se você estivesse procurando o inferno e encontrasse St. Andrews, não ficaria decepcionado.”

 O estranho observa ao longe as boas meninas pularem corda, – lambuzadas de batom barato da mamãe –, “doze, treze, quatorze... Três, dois, um... Sua vez”, quiçá por descoberta da cor de suas calcinhas... Sabe-se lá que como jornal e suas notícias ruins, ele inspirava-se de “ABC”. Ele está lá no desvio cinzento, com seus olhos tirados, sapatos engraxados e sua barbicha falha, de rapaz que pede a garçonete de aperitivo, por bel-prazer d’um dito filho da puta, ser. O estranho não tem pressa: em sirenes ou faróis vermelhos, ele abre o zíper da calça para pagar as dívidas da mamãe. Para-amamentar-a-mamãe. Mas não, não, o estranho não é de fato, estranho. De modo algum tenho pressa por fechar feridas em apenas lâminas do narrativo; como você e vós, não “tendes” morrer. Tendes. (Essa é boa.) “Tem-de” aquelas risadinhas num emaranhado virginal, Pisca-Pisca e seus fantasmas vários, – de já muitos dezembros partidos –, voltarem enfim, a mim. E ninguém os disse para onde vão dar. Mamãe preservou-os dos papéis de parede que descascam, já que o preço das gozadas do papai na puta que pariu interfere no tamanho de seus presentes. Mas a mamãe é uma boa mulher; o Bicho Papão não tem do que reclamar, – é só a merda do chá que é deixado esfriar. Mamãe cruza as pernas e engole suas palavras, como se engolisse a porra dos gostos mais refinados, – ao qual o papai só lambe os dedos quando ternos ocupando as cadeiras estão, mas não olhando. Mamãe se convence de tudo, até mesmo de que o Papai Noel passa pela chaminé, mas que o papai não passou pela porta dos fundos. Mamães fodem como menininhas, quietinhas e assustadas. Mas os grunhidos não são delas não, que tamanha calúnia! É o sótão. É o rato! O rato malvado, que rói os cordões pela sua – e minha – infância romper: mas não interrompe as muitas cordas a vir de todos, saltarem.

“Eu o estrangulei com sua gravata. Saiu espuma de sua boca, e ele ficou azul feito lagosta crua.”

“O legista disse que fora suicídio, e 75 meninos respiraram aliviados.”

O estranho observa ao longe as boas meninas pularem corda, “doze, treze, quatorze... Três, dois, um... Sua vez”, quiçá à descoberta da cor de suas calcinhas... O estranho que hora ou outra, abre o zíper da calça.
Tudo, tudo, minha cara, acaba empacotando nos sótãos.

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