(Situado em Pigalle no Boulevard de Clichy, à margem de Montmartre.) Havia uma menina. Uma estranha menina que observava o moinho vermelho toda madrugada. Pendia nos lábios sempre um cigarro Marlboro ao invés de algodão doce. Ela estava nos diálogos curtos e longos da França. Os tolos e reis driblavam o nariz pontudo para desejá-la. Era bonita demais, mas nova e ausente o suficiente para não acolhê-la no pecado dos homens. Ela impressionava a sociedade com seu silêncio sábio. Seus olhos desprezavam tudo que alcançavam, mas seu sorriso não alcançava os próprios. Forjado. Ela inspirava composições. Diziam que era filha das províncias interditadas e sonhos esquecidos. Outros garantiam que viera de muito longe, além da terra e oceano. Caia moedas em seu chão, mas ela nunca se humilhava para apanhá-las na sarjeta. “Já estou enjaulada em nicotina e nos olhares curiosos. Não decore meu travesseiro com prata e ouro, e não ultrapassem minha cortina de fumaça fétida.” Evitava com seu sotaque suburbano macio como seda, vestido em um tom áspero enrouquecido. Eu era mais um de seus admiradores anônimos. Eu a desenhava na penumbra, mesmo sem o auxílio do luar prateado. Insistia em ter sua assinatura, e ela sempre recusava dizendo que tinha muitos nomes e rostos. Ela era uma atração turística. Uma interrogação sem trégua. Ela ofuscava o Moulin Rouge. Infelizmente seu aroma de canela não podia ser impresso em meu papel. Era uma pena que em fotografias seu retrato não era revelado. Era uma pena que em espelhos seu reflexo se escondia. Até que em uma noite comum, um fato histórico aconteceu. Eu fui ao seu encontro como costumava, mas só avistei um Moulin Rouge que tonteava com seu brilho retomado. Ela tinha ido embora. Parecia ter autonomia da liberdade e do tempo, embora fosse uma criança com o vôo interrompido. (Paris, França - 1988.)
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